historico:2014:ensaios:piatti
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historico:2014:ensaios:piatti [2014/10/21 20:04] – lilianapiatti | historico:2014:ensaios:piatti [2022/11/24 14:12] (atual) – edição externa 127.0.0.1 | ||
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+ | ====== Aplicação da seleção de modelos em estudos de ecologia de comunidades ====== | ||
+ | === Liliana Piatti === | ||
+ | * Programa de Pós-Graduação em Ecologia - Instituto de Biociências/ | ||
+ | * lilianapiatti@gmail.com | ||
+ | Na ciência atual o conhecimento é produzido através de contínua formulação e teste de hipóteses, que são refutadas ou comprovadas de acordo com a observação de dados ou da realização de experimentos (Hilborn & Mangel 1997). A estatística é a ferramenta utilizada para dar forças às observações e generalizações oriundas dos dados e às inferências feitas a partir delas (Lewin-Koh et al. 2004). Dentre as diferentes escolas estatísticas mais empregadas nas ciências naturais, a escola frequentista foi a mais desenvolvida e utilizada no último século (Anderson et al. 2000). Nesse paradigma, a hipótese da ocorrência de um dado fenômeno ou relação é testada contra uma hipótese que maneja os dados para expressar o resultado esperado quando há ausência do fenômeno de interesse (hipótese nula). A baixa probabilidade de encontrar observações iguais ou mais extremas aos dados coletados considerando a ausência do fenômeno é o que faz com que a hipótese nula seja rejeitada e seja reconhecida a importância do fenômeno de interesse. Atualmente, outras escolas estatísticas têm se comprovado bastante úteis e poderosas em estudos ecológicos, | ||
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+ | A inferência estatística por meio de verossimilhança é feita basicamente confrontando a probabilidade de se obter os dados observados considerando duas (ou mais) hipóteses (Royall 2007). Segundo a Lei da Verossimilhança, | ||
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+ | A inferência por verossimilhança apresenta uma vantagem em relação ao paradigma frequentista pela possibilidade de confrontarmos múltiplas hipóteses ao mesmo tempo, utilizando-se dos mesmos dados, e obtendo uma força de evidencia de uma hipótese em relação às outras hipóteses, as quais são formuladas com base no nosso conhecimento sobre o sistema (Chamberlin 1890, Royall 2007, Bolker 2008). | ||
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+ | Em modelos matemáticos, | ||
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+ | Pelo fato de, em todo modelo matemático, | ||
+ | Em sistemas muitos complexos, que sofrem ação simultânea e diferentes em magnitudes e escalas, a coleta de dados que permitam o teste de hipóteses frequentistas sobre essas forças se torna bastante problemática. A partição das relações entre variáveis de maneira estatisticamente confiável requer uma quantidade bastante grande de dados, e, novamente, nem sempre os pressupostos para a aplicação de muitos testes estatísticos frequentistas não são fáceis de serem encontrados em dados biológicos. Nesses casos, a seleção de modelos se torna mais vantajosa, pois permite a comparação simultânea de diferentes modelos que consideramos plausíveis de gerar o que observamos (Johnson & Omland 2004). As forças que atuam podem ser expressas em modelo de forma isolada ou agregada, linear ou não, e assim podemos fazer questionamentos mais diretos sobre esses sistemas. | ||
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+ | Para exemplificar, | ||
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+ | Além de apontar quais as relações são as mais atuantes no sistema, através de seleção de modelos pelo AIC é possível realizar abordagens que permitam estimar a importância relativa de cada variável (Burnham & Anderson 2002, 2004, Burnham et al. 2011). Dos valores de AIC calculados, calcula-se o peso de evidência de cada um dos modelos, que representam a qualidade relativa de cada modelo em uma escala padronizada. A importância geral de uma variável em questão é expressa pela soma dos pesos dos modelos que compartilham essa variável (Burnham & Anderson 2002, 2004). | ||
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+ | Entre os temas mais abordados atualmente em ecologia de comunidades estão os padrões de distribuição de espécies que constituem uma comunidade biológica e a busca pela compreensão dos processos que os originaram e que os mantém (Vellend 2010). Até recentemente era comum o uso da dicotomia: i) a detecção do efeito da competição e outras interações ecológicas na estrutura de comunidades e coexistência de espécies é feita através de estudos em escalas espaciais restritas, analisando-se variáveis atuais; e ii) a análise da distribuição geográfica das espécies em escalas maiores carregam informações sobre processos biogeográficos e macroevolutivos. Entretanto, atualmente é bastante aceito que a distribuição e co-ocorrência de espécies são influenciadas por diversos fatores históricos, | ||
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+ | Neste cenário a aplicação de seleção de modelos pode ser uma alternativa aos teste frequentistas em estudos que buscam o entendimento das variáveis agindo sobre os descritores de uma comunidade. Através da construção de modelos de variáveis agrupadas ou isoladas, com relações de diferentes tipos (lineares, quadráticas, | ||
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+ | Em síntese, considerando que: questões sobre importância relativa de fatores influenciando uma comunidade geralmente envolvem muitas variáveis, que atuam em escalas diferentes; que a coleta de quantidades suficientes de dados para testes “frequentistas” sobre os descritores de comunidade (riqueza e abundância de espécies) é bastante exigente quanto a tempo e recursos financeiros e humanos; e que é geralmente impraticável a realização de experimentos, | ||
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+ | ===== Referências bibliográficas ===== | ||
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+ | Anderson DR, Burnham KP & Thompson WL. 2000. Null hypothesis testing: problems, prevalence, and an alternative. Journal of Wildlife Management 64, 912 – 923. | ||
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+ | Bolker BM. 2008. Ecological Models and Data in R. Princeton University Press. | ||
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+ | Bozdongan H. 1987. Model selection and Akaike' | ||
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+ | Burnham KP & Anderson DR. 2002. Model selection and multimodel inference: A pratical information - Teoretic approach. Springer. | ||
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+ | Burnham KP, Anderson DR & Huyvaert KP. 2011. AIC model selection and multimodel inference in behavioral ecology: some background, observations and comparisons. Behavioral Ecology and Sociobiology, | ||
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+ | Chamberlin TC. 1890. The method of multiple working hypothesis. Science, 15 (336), 92-96. | ||
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+ | Hilborn R & Mangel M. 1997. The ecological detective: Confronting models with data. Princeton University Press, Princeton. | ||
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+ | Johnson JB & Omland KS. 2004. Model selection in ecology and evolution. Trends in Ecology and Evolution, 19(2), 101-108. | ||
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+ | Lewin-Koh N, Taper ML & Lele SR. 2004. A brief tour of statistical concepts. In: The nature of scientific evidence (eds. ML Taper and SR Lele), University of Chicago Press, pp 3 -16. | ||
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+ | Royall, RM. 2007. The likelihood paradigm for statistical evidence. In: The nature of scientific evidence (eds. M.L. Taper and S.R. Lele), University of Chicago Press, pp 119–152 | ||
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+ | Vellend M. 2010. Conceptual synthesis in community ecology. The quarterly Review of Biology, 85(2), 183-206. | ||
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+ | Warren D, Cardillo M, Rosauer D & Bolnick D. 2014. Mistaking geography for biology: inferring processes from distributions. Trends in Ecology & Evolution, 29, 572-580. | ||
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+ | =====Citação===== | ||
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+ | Este ensaio é um produto de disciplina da pós-graduação da Universidade de São Paulo. Para citá-lo: | ||
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+ | Piatti, L. Aplicação da seleção de modelos em estudos de ecologia de comunidades. In: Prado , P.I & Batista, J.L.F. Modelagem Estatística para Ecologia e Recursos Naturais. Universidade de São Paulo. url: http:// |