historico:2014:ensaios:jardim
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historico:2014:ensaios:jardim [2014/10/24 21:33] – lucas.jardim | historico:2014:ensaios:jardim [2022/11/24 14:12] (atual) – edição externa 127.0.0.1 | ||
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+ | ====== Macroecologia e evidência====== | ||
+ | === Lucas Jardim === | ||
+ | * Pós-Graduação em Ecologia e Evolução, Universidade Federal de Goiás | ||
+ | * lucas.jardim@bol.com.br | ||
+ | ===== Macroecologia ===== | ||
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+ | A Macroecologia é um programa de pesquisa ecológico que busca entender quais são os mecanismos que geram os padrões encontrados em grandes escalas geográficas e temporais (GASTON; BLACKBURN, 2000). Para isso, ela está interessada em estudar as propriedades que emergem em grandes escalas sem se interessar nos múltiplos efeitos que se interagem em menores escalas para formá-las (BROWN, 1995). Essa perspectiva é como olhar um sistema com uma lente que dá foco no macro, sem se aprofundar nos detalhes dentro desse sistema (BROWN, 1995). | ||
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+ | Esse programa surgiu como uma contrapartida aos estudos experimentais que explicavam bem sistemas locais, mas falhavam em predições de ampla escala (BROWN; MAURER, 1989). No entanto, em estudos macroecológicos é muito difícil, se não impossível, | ||
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+ | Inicialmente, | ||
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+ | Para corrigir o segundo problema, os estudos utilizam modelos nulos para testar quão improvável seria o padrão observado (resumido em uma estatística) sob um cenário puramente aleatório, onde os efeitos que achamos importantes não estariam atuando (GOTELLI; ULRICH, 2012). Além de haver historicamente muitas críticas sobre como criar o melhor modelo nulo e como ter a garantia de que somente o efeito de interesse está sendo eliminado do modelo (GOTELLI; ULRICH, 2012). Nessa abordagem, a hipótese-nula é testada contra uma hipótese-alternativa (presença de efeito) por um método de aleatorização dos dados (GOTELLI; ULRICH, 2012). Esse método tenta reconstruir os possíveis resultados que existiriam sob aquele modelo nulo (GOTELLI; ULRICH, 2012). Entretanto o mecanismo não é explicitamente testado e nenhuma medida de suporte é dada à hipótese alternativa (GOTELLI; ULRICH, 2012). Ou seja, não é possível saber qual a probabilidade do dado acontecer sob a hipótese de existência de um efeito. | ||
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+ | Uma forma de testar explicitamente quais variáveis (ex: temperatura) poderiam influenciar uma variável de interesse (ex: riqueza) seria através da inferência por modelos. Ao invés de usarmos somente o modelo nulo, nesse tipo de inferência, | ||
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+ | === Modelo Linear Geral === | ||
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+ | Os tipos mais comuns de modelos são os Modelos Lineares Gerais, onde as correlações entre as amostras são incluídas por meio de uma matriz de covariância ou usando autofunções como variáveis que descrevem as correlações (LEGENDRE, 1993). Nesses modelos são assumidos que a distribuição dos resíduos segue uma distribuição Gaussiana e que há homocedasticidade. | ||
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+ | No entanto, como dito anteriormente, | ||
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+ | Com esses modelos em mãos, podemos ajustá-los aos dados e através de uma medida de melhor ajuste (ex: R² ajustado) selecionar o melhor modelo (LICHSTEIN et al., 2002). No entanto, o R² é somente uma estatística descritiva dos dados (ANDERSON, 2008), que nos diz o quanto um modelo é mais ajustado em relação a outro com somente o intercepto. Além disso esse critério é de difícil aplicação (NAGELKERKE, | ||
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+ | Para fazermos isso vamos utilizar a inferência por verossimilhança e critérios de informação para selecionarmos os melhores modelos. Essa abordagem já é utilizada em estudos macroecológicos (DINIZ-FILHO; | ||
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+ | ===Verossimilhança=== | ||
+ | A verossimilhança é uma medida proporcional à probabilidade do dado ocorrer sob um modelo e um valor de parâmetro (hipótese) (EDWARDS, 1992). Por exemplo, se jogarmos duas moedas e assumirmos que esse experimento segue uma distribuição binomial, com o valor da probabilidade de cair cara igual a 50%, qual será a probabilidade de encontrarmos 2 caras? Essa seria uma pergunta probabilística do resultado que não conhecemos. No entanto, se uma pessoa jogar duas moedas e as duas caírem cara, como sabemos que ela é honesta, ou seja, a probabilidade de cair cara é 0.5? Quando o que desconhecemos é o parâmetro do modelo, o que buscamos é a verossimilhança deste parâmetro e não a probabilidade do dado ocorrer, uma vez que esses já aconteceram. | ||
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+ | De acordo com o Axioma da Verossimilhança, | ||
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+ | ===Seleção de modelos=== | ||
+ | Quando fazemos ciência, infelizmente a única informação que temos é o resultado do experimento, | ||
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+ | Em Teoria da Informação, | ||
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+ | ===Voltando à Macroecologia=== | ||
+ | Como dito no início desse texto, a Macroecologia tem testado hipóteses, tanto pela interpretação de formas das curvas observadas nos dados, quanto por meio de modelos nulos e também pela seleção de modelos. A melhor forma de estudar como certos padrões são formados, não é por um simples ajuste de curva ou modelos nulos, uma vez que essas abordagens não nos permitem confrontar explicitamente quais são os mecanismos atuando nos sistemas estudados. A melhor forma é realizando uma seleção de modelos, que nos permita estimar qual das hipóteses propostas estão mais próximas da realidade. Entretanto, as formas mais comum de selecionarmos modelos (regressões stepwise, R² ou R² ajustado) não possuem essa propriedade. Sendo assim, a melhor forma de fazermos isso é por um critério de seleção de modelos como o Critério de Informação de Akaike, o qual nos fornece essa estimativa. | ||
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+ | Além disso, esse critério tem como subproduto o Princípio da Parcimônia (ANDERSON, 2008), ou seja, o melhor modelo é aquele que explica bem e que é simples na sua estrutura. Outro subproduto do AIC é a equivalência entre o modelo escolhido por esse critério e por aqueles por validação cruzada (ANDERSON, 2008). Isso significa que se dividíssemos o conjunto de dados em 2 subconjuntos aleatórios, | ||
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+ | Por essa abordagem também é possível estimar a força de evidência relativa de cada variável na explicação de um padrão (ANDERSON, 2008). Sendo assim, considerando os diferentes modelos, quais daquelas variáveis propostas são de fato mais importantes para o sistema estudado. Assim, podemos não somente estimar o melhor modelo, como também saber quais são as variáveis importantes. | ||
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+ | Com o uso dessa abordagem, acredito que as inferências em Macroecologia serão mais robustas e permitirá que um conjunto de hipóteses concorrentes e realistas sejam estabelecidas e confrontadas, | ||
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+ | ===Dificuldades== | ||
+ | O problema que surge ao trocar de abordagem está na dificuldade de construir funções de verossimilhança para modelos que ainda não possuem essas funções na literatura. Como exemplo, funções de verossimilhança que permitam confrontar um modelo que descreve diferentes comunidades como agrupadas filogeneticamente contra um que as descreve como dispersa. Provavelmente, | ||
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+ | ===Conclusão=== | ||
+ | Por fim, com o desenvolvimento da habilidade de construir essas funções, como exemplo o citado no parágrafo anterior, permitiria que diferentes modelos, com diferentes mecanismos e diferentes formas de relacioná-los descrevessem os dados observados e com isso escolhêssemos aquele mais próximo ao real. Isso é muito melhor do que somente sabermos se o dado observado tem baixa probabilidade de não ter estrutura filogenética. Com certeza, a mudança de abordagem e o seu exercício trarão grande clareza na compreensão das hipóteses sendo criadas e dos pressupostos assumidos por elas. | ||
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+ | ===== Referências bibliográficas ===== | ||
+ | ANDERSON, D. R. Model Based Inference in the Life Sciences : | ||
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+ | BROWN, J. H. Macroecology. 1a edition ed. Chicago: University of Chicago Press, 1995. p. 284 | ||
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+ | BROWN, J. H.; MAURER, B. A. Macroecology: | ||
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+ | DINIZ-FILHO, | ||
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+ | EDWARDS, A. W. F. Likelihood: expanded edition. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1992. p. 296 | ||
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+ | FELSENSTEIN, | ||
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+ | GASTON, K. J.; BLACKBURN, T. M. Pattern and Process in Macroecology. 1a edition ed. Cornwall: Wiley-Blackwell, | ||
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+ | GOTELLI, N. J.; ULRICH, W. Statistical challenges in null model analysis. Oikos, v. 121, n. 2, p. 171–180, 29 fev. 2012. | ||
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+ | HAWKINS, B. A.; DINIZ-FILHO, | ||
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+ | LEGENDRE, P. Spatial Autocorrelation: | ||
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+ | LICHSTEIN, J. W. et al. SPATIAL AUTOCORRELATION AND AUTOREGRESSIVE MODELS IN ECOLOGY. Ecological monographs, v. 72, n. 3, p. 445–463, 2002. | ||
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+ | MCGILL, B. Strong and weak tests of macroecological theory. Oikos, v. 102, n. 3, p. 679–685, 2003. | ||
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+ | NAGELKERKE, N. J. D. A note on a general definition of the coefficient of determination. Biometrika, v. 78, n. 3, p. 691–692, 1991. | ||
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+ | NAKAGAWA, S.; SCHIELZETH, H. A general and simple method for obtaining R 2 from generalized linear mixed-effects models. Methods in Ecology and Evolution, v. 4, n. 2, p. 133–142, 3 fev. 2013. | ||
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+ | PERES-NETO, P. R. A UNIFIED STRATEGY FOR ESTIMATING AND CONTROLLING SPATIAL , TEMPORAL AND PHYLOGENETIC AUTOCORRELATION IN ECOLOGICAL MODELS. Oecologia brasiliensis, | ||
+ | ===Citação=== | ||
+ | Este ensaio é um produto da disciplina da pós-graduação | ||
+ | Jardim, L. 2014. Macroecologia e evidência. In: Prado , P.I & Batista, J.L.F. Modelagem Estatística para Ecologia e Recursos Naturais. Universidade de São Paulo. url: http:// | ||
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