historico:2014:ensaios:goncalves
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historico:2014:ensaios:goncalves [2014/10/23 19:34] – [Ajustar um modelo é fácil, quero ver você interpretá-lo!] larissa.oligon | historico:2014:ensaios:goncalves [2022/11/24 14:12] (atual) – edição externa 127.0.0.1 | ||
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+ | ====== A inferência baseada em modelos e a mortalidade de fauna em rodovias ====== | ||
+ | === Larissa Oliveira Gonçalves=== | ||
+ | * Pós-Graduação em Ecologia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul | ||
+ | * larissa.oligon@gmail.com | ||
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+ | ===== Ajustar um modelo é fácil, | ||
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+ | A inferência estatítica baseada em modelos tem sido cada vez mais utilizada e tem mudado a maneira como ecológos pensam a análise de seus dados e a criação de suas hipóteses (pelo menos mudou muito a minha!). Mas, afinal, o que são modelos? Modelos nada mais são que formalizações matemáticas que expressam diferentes hipóteses teóricas pensadas para o sistema estudado, isto é, construir um modelo estatítico nada mais é do escolher uma distribuição de probabilidades que melhor descreve seus dados e, posteriormente, | ||
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+ | Durante a disciplina pude perceber como a minha maneira de pensar a análise de dados em ecologia mudou, não só pelo aprofundamento de conceitos que antes eram bastante surperficiais, | ||
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+ | Encontrar os parâmetros que melhor descrevem nossos dados significa que podemos saber, não só se há efeito de nossa variável preditora sobre a resposta, mas também qual é a força dessa relação. Assim, podemos ajustar diferentes modelos aos nossos dados (baseados em diferentes hipóteses) e compará-los para encontrar evidência a favor de uma hipótese frente as demais. A ideia aqui é encontrar o modelo (ou hipótese) que torna os meus dados mais prováveis. O Critéio de Informação de Akaike (AIC) é o método que vem sendo bastante utilizado para comparar diferentes modelos e descobrir qual é o mais plausível, ou os mais plausíveis dentre os modelos possíveis (Burnham & Anderson, 2002; Anderson 2008). O melhor modelo será aquele que teve a menor perda de informação para explicar os dados, considerando não só a verossimilhança de cada modelo, mas também o número de parâmetros que esse modelo possui (Anderson 2008). O AIC é uma medida de distância, isto é, o menor valor de AIC representa o modelo mais plausível (Anderson 2008). | ||
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+ | ===== Aplicando o que foi aprendido ao meu sistema: as rodovias! ===== | ||
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+ | Uma das principais motivações para realizar a disciplina era poder olhar diferente para o meu sistema de estudo, que é a ecologia de rodovias. A construção de rodovias e o consequente tráfego de veículos causam diversas ameaçadas à biodiversidade (Forman et al. 2003). Segundo Fahrig & Rytwinski (2009), a mortalidade de fauna pode ter efeitos substanciais na densidade populacional, | ||
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+ | No meu doutorado pretendo criar modelos que possam prever o risco de mortalidade de fauna em rodovias através de características da rodovia (como tamanho e largura do pavimento, velocidade e tráfego de veículos), características das espécies (tamanho corporal do animal e a velocidade em que ele atravessa a rodovia) e características da paisagem do entorno da rodovia. Aqui tentarei aplicar o que foi aprendido à construção de modelos bastante simples que comparam apenas o fluxo de veículos com o número de animais encontrados atropelados. Dentre vários fatores, o fluxo de veículos é dos principais fatores que governam a probabilidade de colisão animal-veículo (Van Langevelde & Jaarsma 2004; Jaarsma et al. 2006) e está relacionado ao intervalo de tempo disponível para a travessia do animal. | ||
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+ | Utilizei registros de vertebrados encontrados atropelados na BR-101 Sul, a qual foi monitorada mensalmente por 17 meses. O fluxo de veículos foi registrado a partir de contadores de fluxo localizados em diferentes trechos da rodovia, o qual nos fornece o número de veículos por hora que passaram naquele trecho. Primeiramente, | ||
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+ | Os resultados indicaram que o modelo mais plausível (deltaAIC < 2) é o modelo utilizando a binomial negativa e a relação quadrática entre o número de animais atropelados e o fluxo de veículos (Tabela 1). Esse resultado corrobora a hipótese de que o número de animais atropelados é maior quanto maior o fluxo de veículos, até um ponto onde o efeito de evitamento da rodovia é responsável pelo decaimento no número de acidentes (Figura 1). Além disso, a distribuição binomial negativa realmente é mais indicada para esses dados, já que os atropelamentos podem não ocorrer aleatoriamente ao longo das rodovias, e sim estarem agregados espacialmente (Clevenger et al. 2003, Coelho et al. 2008). | ||
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+ | ===== Referências Bibliográficas ===== | ||
+ | Anderson, D. R. 2008. Model based inference in the life sciences: a primer on evidence. New York, Springer. | ||
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+ | Batista, J.L.F. Apostila Verossimilhança e Máxima Verossimilhança. 2009, p 1-27. | ||
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+ | Bolker, B.M. 2008. Ecological Models and Data in R Princeton: Princeton University Press. | ||
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+ | Burnham, K. P. & Anderson, D. R. 2002. Model Selection and Multimodel Inference: A Practical-Theoretic Approach, 2nd ed. New York, Springer-Verlag. | ||
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+ | Clevenger, A.P., Chruszcz, B. & Gunson, K.E., 2003. Spatial patterns and factors influencing small vertebrate fauna road-kill aggregations. Biological Conservation, | ||
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+ | Coelho, I. P.; Coelho, A. V. P. & Kindel, A. 2008 Roadkills of vertebrate species on two highways through the Atlantic Forest Biosphere Reserve, southern Brazil. European Journal of Wildlife Research, v.54, p.689-699. | ||
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+ | Fahrig, L. & Rytwinski, T., 2009. Effects of Roads on Animal Abundance?: an Empirical Review and Synthesis. Ecology and, 14(1), p.21. | ||
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+ | Forman, R. T.; Sperling, D.; Bissonette, J. A.; Clevenger, A. P.; Cutshall, C. D.; Dale, V. H.; Fahrig, L.; France, R.; Goldman, C. R.; Heanue, K.; Jones, J. A.; Swanson, F. J.; Turrentine, T.; Winter, T. C. 2003 Road Ecology: Science and Solutions. Island Press: Washington, DC. 481p. | ||
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+ | Forman, R.T. & Alexander, L.E., 1998. Roads and Their Major Ecological Effects. Annual Review of Ecology and Systematics, | ||
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+ | Jaarsma, C.F., van Langevelde, F. & Botma, H., 2006. Flattened fauna and mitigation: Traffic victims related to road, traffic, vehicle, and species characteristics. Transportation Research Part D: Transport and Environment, | ||
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+ | Jackson, N. D. & Fahrig, L. 2011. Relative effects of road mortality and decreased connectivity on population genetic diversity. Biological Conservation, | ||
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+ | Van Langevelde, F. & Jaarsma, C.F. 2004. Using traffic ?ow theory to model traffic mortality in mammals. Landscape Ecology, 19, 895–907. | ||
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+ | ===== Citação ===== | ||
+ | Este ensaio é um produto de disciplina da pós-graduação da Universidade de São Paulo. Para citá-lo: | ||
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+ | Gonçalves, L. O. 2014. A inferência baseada em modelos e a mortalidade de fauna em rodovias. In: Prado , P.I. & Batista, J.L.F. Modelagem Estatística para Ecologia e Recursos Naturais. Universidade de São Paulo. url: | ||
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