historico:2014:ensaios:barros
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historico:2014:ensaios:barros [2014/10/27 05:22] – [Exemplo Prático] gabrielbbarros | historico:2014:ensaios:barros [2022/11/24 14:12] (atual) – edição externa 127.0.0.1 | ||
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Linha 1: | Linha 1: | ||
+ | ====== Análise Inferencial em ecologia bentônica: o mundo além da Distribuição Gaussiana ====== | ||
+ | ==Gabriel Barros Gonçalves de Souza== | ||
+ | * Mestre em Ecologia e Biomonitoramento, | ||
+ | * gabrielbbarros@gmail.com | ||
+ | A Análise Inferencial tem sido utilizada como suporte estatístico para as pesquisas em ecologia, uma vez que os testes de hipóteses são fundamentais para a compreensão dos processos que regem os padrões ecológicos. Tradicionalmente, | ||
+ | No presente ensaio, será primeiramente realizada uma contextualização acerca do tema, sendo posteriormente discutido os aspectos que envolvem a utilização da Inferência Frequentista (ou Clássica) e da Inferência por Verossimilhança. Por fim, será feita uma análise do cenário referente ao uso de análises inferenciais em ecologia bentônica e apresentado um exemplo prático para ajuste de modelos a dados reais. | ||
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+ | ===== Contextualização ===== | ||
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+ | A ecologia é uma ciência que tem como principal intuito descrever padrões espaciais e/ou temporais de distribuição e abundância de organismos, bem como entender suas causas e conseqüências (Scheiner & Willig, 2008). A descrição destes padrões na natureza permite a geração de hipóteses, delineamento de experimentos e tomada de decisões. Além disso, estudos de padrões fornecem informações necessárias para determinar o status e a dinâmica das populações e das comunidades, | ||
+ | |||
+ | Para garantir a eficácia na descrição de um padrão ecológico, é necessária extrema atenção aos seguintes aspectos de uma pesquisa científica: | ||
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+ | No que tange à análise de dados, tradicionalmente, | ||
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+ | ===== Inferência Frequentista x Inferência por Verossimilhança ===== | ||
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+ | Uma vez que a abordagem da Verossimilhança é um contraponto estatístico, | ||
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+ | Como informado anteriormente, | ||
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+ | A inferência da verossimilhança está baseada no ajuste de modelos aos dados obtidos (seleção de modelos), de modo que os parâmetros da distribuição de probabilidades são variáveis e os dados utilizados são fixos (Bolker, 2007). A seleção de modelos configura uma comparação entre um conjunto de hipóteses, sendo possível comparar mais de duas hipóteses distintas que possivelmente explicam um mesmo processo. De acordo com a Lei da Verossimilhança, | ||
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+ | Existem outras características que diferenciam as abordagens Clássica e de Verossimilhança. Enquanto a análise Frequentista é pautada quase unicamente na distribuição Gaussiana de probabilidades, | ||
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+ | ===== Inferência Estatística em Estudos Bentônicos ===== | ||
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+ | A variedade estrutural dos habitats marinhos (e.g. rochas e fendas em substratos consolidados, | ||
+ | |||
+ | Comunidades bentônicas marinhas são tipicamente compostas por poucas espécies comuns e muitas espécies raras (Riddle, 1989), o que gera uma grande variância dos dados obtidos. Além disso, os organismos bentônicos de substratos não consolidados estão geralmente distribuídos de maneira agregada, afetando a normalidade dos dados (Morrisey //et al//., 1992). Essas duas características influenciam diretamente na necessidade de maior rigor nos procedimentos amostrais (Boyd //et al//., 2006). Entretanto, mesmo um procedimento amostral extremamente rigoroso não garante que os dados se ajustem a uma Distribuição Gaussiana. | ||
+ | |||
+ | Uma vez que a Inferência Estatística Frequentista está baseada na Distribuição Gaussiana e os dados de estudos de ecologia bentônica raramente se ajustam às características dessa distribuição, | ||
+ | |||
+ | Considerando as características peculiares da distribuição espacial dos organismos bentônicos, | ||
+ | |||
+ | Quase 40 anos após o trabalho de Heip (1975), grande parte dos estudos bentônicos ainda insistem no uso de modelos gaussianos, de modo que os dados são constantemente submetidos a transformações e padronizações com intuito de aproximá-los às características de uma Distribuição Gaussiana. Além disso, testes estatísticos, | ||
+ | |||
+ | ==== Exemplo Prático ==== | ||
+ | |||
+ | Para exemplificar o tema discutido no presente ensaio, serão utilizados dados da macrofauna bentônica coletada no infralitoral de Inema e Ribeira, Baía de Todos os Santos (Salvador - Bahia). | ||
+ | |||
+ | PASSO 1: | ||
+ | |||
+ | Os dados a macrofauna bentônica compõem um estudo realizado em duas áreas com o intuito de avaliar a influência de dois procedimentos de preservação de amostra (utilizando Formalina 10% ou Álcool 70%) nos descritores da comunidade. Para facilitar o exemplo prático, foram calculados somente valores referentes ao número de espécies e abundância total em cada réplica amostral (5 pontos de amostragem para cada procedimento em cada praia, com 3 réplicas por ponto). Sendo assim, o primeiro passo é carregar os dados do arquivo '' | ||
+ | |||
+ | < | ||
+ | bentos< | ||
+ | head(bentos) | ||
+ | |||
+ | #Local Preserv Ponto Replica Sp Abund | ||
+ | #1 Inema Alcool | ||
+ | #2 Inema Alcool | ||
+ | #3 Inema Alcool | ||
+ | #4 Inema Alcool | ||
+ | #5 Inema Alcool | ||
+ | #6 Inema Alcool | ||
+ | </ | ||
+ | |||
+ | === Número de Espécies === | ||
+ | |||
+ | PASSO 2: | ||
+ | |||
+ | A partir de agora se inicia o processo para tentar ajustar os modelos Normal, Poisson e Binomial Negativo sobre a distribuição do Número de Espécies. Para tal, é criada uma função chamada nLL.norm que recebe dois parâmetros - um para a média e outro para o desvio padrão - e retorna a soma da log-verossimilhança negativa associada a esses valores para o modelo normal de distribuição de número de espécies de todas as réplicas amostrais. São criadas funções semelhantes para as distribuições Poisson e Binomial Negativa. | ||
+ | |||
+ | < | ||
+ | nLL.norm< | ||
+ | { | ||
+ | -sum(dnorm(bentos$Sp, | ||
+ | } | ||
+ | |||
+ | nLL.pois< | ||
+ | { | ||
+ | -sum(dpois(bentos$Sp, | ||
+ | } | ||
+ | |||
+ | nLL.nbinom< | ||
+ | { | ||
+ | -sum(dnbinom(bentos$Sp, | ||
+ | } | ||
+ | </ | ||
+ | |||
+ | PASSO 3: | ||
+ | |||
+ | A função '' | ||
+ | |||
+ | < | ||
+ | library(bbmle) | ||
+ | |||
+ | mle.norm< | ||
+ | mle.pois< | ||
+ | mle.nbinom< | ||
+ | </ | ||
+ | |||
+ | PASSO 4: | ||
+ | |||
+ | O valor de log-verossimilhança negativa de cada ajuste é analisado utilizando as funções '' | ||
+ | |||
+ | < | ||
+ | logLik.norm< | ||
+ | logLik.pois< | ||
+ | logLik.nbinom< | ||
+ | AICtab(mle.norm, | ||
+ | |||
+ | # | ||
+ | #mle.nbinom -189.5 | ||
+ | # | ||
+ | # | ||
+ | </ | ||
+ | |||
+ | Como pode ser observado, o modelo Binomial Negativo é o mais plausível, apresentando melhor ajuste aos dados de número de espécies. | ||
+ | |||
+ | === Abundância === | ||
+ | |||
+ | PASSO 5: | ||
+ | |||
+ | Os passos 2 ao 4 são repetidos, substituindo-se os dados de número de espécies pelos dados de abundância. | ||
+ | |||
+ | < | ||
+ | nLL.norm< | ||
+ | { | ||
+ | -sum(dnorm(bentos$Abund, | ||
+ | } | ||
+ | |||
+ | nLL.pois< | ||
+ | { | ||
+ | -sum(dpois(bentos$Abund, | ||
+ | } | ||
+ | |||
+ | nLL.nbinom< | ||
+ | { | ||
+ | -sum(dnbinom(bentos$Abund, | ||
+ | } | ||
+ | |||
+ | mle.norm< | ||
+ | mle.pois< | ||
+ | mle.nbinom< | ||
+ | |||
+ | logLik.norm< | ||
+ | logLik.pois< | ||
+ | logLik.nbinom< | ||
+ | AICtab(mle.norm, | ||
+ | |||
+ | # | ||
+ | # | ||
+ | # | ||
+ | # | ||
+ | </ | ||
+ | |||
+ | De forma semelhante ao observado anteriormente, | ||
+ | |||
+ | =====Considerações Finais===== | ||
+ | |||
+ | Os modelos Gaussianos tem sido a base dos testes estatísticos mais aplicados nos estudos em ecologia, porém esse cenário está mudando em função do aumento do uso de outras abordagens Inferenciais. Em ecologia bentônica, o uso de modelos alternativos (e.g. Binomial Negativo) e de outras abordagens inferenciais ainda é incipiente, porém é necessária uma modificação desse cenário, como foi evidenciado no presente ensaio. Sugere-se que estudos futuros analisem se há discrepância nos resultados observados ao se utilizar Inferência Frequentista e Inferência por Verossimilhança em modelos com variáveis preditoras (relação causa-efeito). | ||
+ | |||
+ | =====Referências bibliográficas===== | ||
+ | |||
+ | Anderson, D.R.; Burnham, K.P.; Thompson, W.L. 2000. Null hypothesis testing: problems, prevalence, and an alternative. Journal of Wildlife Management 64: 912–923. | ||
+ | |||
+ | Andrew, N.L.; Mapstone, B.D. 1987. Sampling and the description of spatial pattern in marine ecology. Oceanography and Marine Biology: an Annual Review 25: 39-90. | ||
+ | |||
+ | Batista, J.L.F. 2009. Verossimilhança e Máxima Verossimilhança. Centro de Métodos Quantitativos (http:// | ||
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+ | Bolker, B.M. 2008. Ecological Models and Data in R Princeton: Princeton University Press. | ||
+ | |||
+ | Boyd, S.E.; Barry, P.J.; Nicholson, M. 2006. A comparative study of a 0.1m2 and 0.25m2 Hamon grab for sampling macrobenthic fauna from offshore marine gravels. Journal of the Marine Biological Association of the United Kingdom, 86: 1315-1328. | ||
+ | |||
+ | Burnham, K.P.; Anderson, D.R. 2002. Model Selection and Multimodel Inference: A Practical-Theoretic Approach, 2nd ed. New York, Springer-Verlag. | ||
+ | |||
+ | Giles, H. 2008. Using Bayesian networks to examine consistent trends in fish farm benthic impact studies. Aquaculture 274(2-4): 181-195. | ||
+ | |||
+ | Gray, J.S. 1974. Animal-sediment relationship. Oceanography and Marine Biology: An Annual Review 12: 223-261. | ||
+ | |||
+ | Heip, C. 1975. On the significance of aggregation in some benthic marine invertebrates. Proceedings of the 9th European Marine Biology Symposium, pp. 527-538. | ||
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+ | Morrisey, D.J.; Howitt, L.; Underwood, A.J.; Stark, J.S. 1992. Spatial variation in soft-sediment benthos. Marine Ecology Progress Series 81: 197-204. | ||
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+ | Murray, S.N.; Ambrose, R.F.; Dethier, M.N. 2002. Methods for performing monitoring, impact, and ecological studies on rocky shores. MMS OCS Study 2001-070. Coastal Research Center, Marine Science Institute, University of California, Santa Barbara, California. MMS Cooperative Agreement Number 14-35 0001-30761, 217 p. | ||
+ | |||
+ | Penna, A; Fraga, S.; Battocchi1, C.; Casabianca, S.; Giacobbe, M.G.; Riobó, P.; Vernesi, C. 2010. A phylogeographical study of the toxic benthic dinoflagellate genus // | ||
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+ | Riddle, M.J. 1989. Precision of the mean and the design of benthos sampling programmes: caution advised. Marine Biology 103: 225-230. | ||
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+ | Royall, R.M. 2007. The likelihood paradigm for statistical evidence. In: The nature of scientific evidence (eds. ML Taper and SR Lele), University of Chicago Press, pp 119–152. | ||
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+ | Scheiner, S.M.; Willig, M.R. 2008. A general theory of ecology. Theoretical Ecology 1: 21-28. | ||
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+ | Thrush, S.F.; Hewitt, J.E.; Funnell, G.A.; Cummings, V.J.; Ellis, J.; Schultz, D.; Talley, D.; Norkko, A. 2001. Fishing disturbance and marine biodiversity: | ||
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+ | Underwood, A.J. 1997. Experiments in ecology: their logical design and interpretation using analysis of variance. Cambridge University Press, Cambridge. | ||
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+ | Underwood, A.J.; Chapman, M.G.; Connell, S.D. 2000. Observations in ecology: you can’t make progress on processes without understanding the patterns. Journal of Experimental Marine Biology and Ecology 250: 97-115. | ||
+ | =====Citação===== | ||
+ | Este ensaio é um produto de disciplina da pós-graduação da Universidade de São Paulo. Para citá-lo: | ||
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+ | SOUZA, G.B.G. 2014. Delineamento Amostral. In: Prado, P.I. & Batista, J.L.F. Modelagem Estatística para Ecologia e Recursos Naturais. Universidade de São Paulo. url: http:// |