historico:2014:ensaios:abrahao
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+ | ====== Mudança de paradigma na análise de dados em ecologia ====== | ||
+ | ==Anna Abrahão== | ||
+ | * Pós-Graduação em Ecologia, Universidade Estadual de Campinas | ||
+ | * anna.abrahao@gmail.com | ||
+ | ===== A abordagem histórica ===== | ||
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+ | O método científico baseado nas ideias “falsificacionistas” de Popper trata a ciência como um produto. A ideia de Popper é que não se pode provar nada, apenas se pode falsear uma hipótese (Gotelli & Elison 2011). Esse processo gera uma assimetria entre verificação e falsificação. Qualquer observação que contradiz a hipótese leva à sua rejeição. No entanto, nunca haverá evidência suficiente para provar que uma hipótese é verdadeira, nem que uma hipótese é “mais verdadeira” que outra. Ora, se o objetivo da ciência é buscar a verdade, do que adianta só ter certeza da falsidade de uma declaração, | ||
+ | A inferência estatística clássica é baseada nessa visão epistemológica. Uma hipótese, ou seja, uma declaração geral a respeito do mundo natural. Essa hipótese é tratada como científica se ela puder ser colocada à prova por experimentação ou observação. Até aí, tudo bem. O problema é que uma hipótese pode ser representada por vários modelos (Hilborn 1997). Na estatística clássica, uma hipótese é representada por apenas um modelo, que é confrontado com um modelo nulo. Se o modelo nulo não é rejeitado, com base na probabilidade fornecida por estatística com distribuição assimptótica (valor de P), aceitamos a nossa hipótese. E os outros modelos, onde ficam? Não ficam. | ||
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+ | ===== A abordagem alternativa ===== | ||
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+ | Uma abordagem alternativa à estatística clássica é a inferência por verossimilhança. Nessa abordagem, várias hipóteses concorrentes, | ||
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+ | Com isso, nós mudamos completamente a nossa forma de fazer ciência. A abordagem dedutiva de Popper, que parte de uma generalização e a aplica a casos particulares é substituída pela abordagem não dedutiva, que usa casos particulares para propor uma conclusão geral. Ao invés de procurar evidências que falseiem uma explicação, | ||
+ | Essa transição entre a estatística frequentista clássica e inferência por verossimilhança na ecologia seria então um período de mudança de paradigma no sentido entendido por Kuhn? Chegou o momento em que acumulamos experiência suficiente que contradiga o paradigma frequentista para derrubá-lo? | ||
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+ | ===== Por que mudar? ===== | ||
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+ | A inferência por verossimilhança nos fornece a força de evidência de um modelo com relação a outro (Batista 2009). Não precisamos mais de hipótese nula formal, valores de P, distribuição assimptótica de uma estatística engessada (Burnham & Anderson 2014). Podemos então entender a ciência como processo e confrontar as nossas hipóteses com outras, que se modificam a cada tomada de dados, ou observação. Esse novo paradigma entende também que o efeito de um processo é mais importante que sua significância, | ||
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+ | =====Referências bibliográficas===== | ||
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+ | Batista, J.L.F. 2009 Verossimilhança e Máxima Verossimilhança. | ||
+ | Burnham, K. P. & Anderson, D.R. 2014. P values are only an index to evidence: 20th- vs. 21st-century statistical science. Ecology 95: | ||
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+ | Gotelli, N.J & Ellison. A.M. 2011. Princípios de estatística em ecologia. Artmed. Porto Alegre, 528p. | ||
+ | Hilborn, R. & Mangel, M. (1997). The Ecological Detective – Confronting Models with Data. Princeton, Princeton University Press. | ||
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+ | Rieppel, O. (2004). What happens when the language of science threatens to break down in systematics: | ||
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+ | Royall, R. M. (2007) The likelihood paradigm for statistical evidence. In: The nature of scientific evidence (eds. ML Taper and SR Lele), University of Chicago Press, pp 119–152. | ||
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+ | =====Citação===== | ||
+ | Este ensaio é um produto de disciplina da pós-graduação da Universidade de São Paulo. Para citá-lo: | ||
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+ | Abrahão, A. 2014. Mudança de paradigma na análise de dados em ecologia. In: Prado , P.I & Batista, J.L.F. Modelagem Estatística para Ecologia e Recursos Naturais. Universidade de São Paulo. url: http:// |